Quando o Estado não paga o que deve, mas questiona como os professores gastam o que recebem, há uma questão de justiça que não pode ser ignorada.
O recente pronunciamento da então ministra da Educação e Cultura, Samaria Tovela, sobre o endividamento e a gestão dos salários dos professores reacendeu um debate que vai muito além das finanças pessoais dos docentes. Afinal, como se pode exigir uma gestão exemplar de rendimentos que muitos professores consideram insuficientes, sujeitos a descontos e acompanhados de dívidas do próprio Estado?
É neste contexto que vale a pena recuperar o discurso de Venâncio Mondlane (VM7), no qual abordou os descontos salariais, as horas extraordinárias e a realidade financeira dos professores. O seu pronunciamento recoloca no centro do debate uma questão essencial: antes de ensinar os professores a gerir os seus salários, não deveria o Estado começar por cumprir as suas próprias obrigações?
Em Junho deste ano, professores de Xai-Xai denunciaram cortes salariais de 5% e atrasos no pagamento de horas extraordinárias referentes a 2023. São problemas concretos que exigem explicações, transparência e soluções, não apenas recomendações sobre educação financeira.
O mais preocupante é que esta realidade não começou com Samaria Tovela, nem terminará simplesmente com a sua saída. Mudam os ministros, sucedem-se os mandatos e renovam-se os discursos, mas os professores continuam a reivindicar pagamentos em atraso, progressão na carreira e condições dignas de trabalho.
O problema não se resolve mudando o rosto que dirige o Ministério, mas transformando as práticas de um sistema que continua sem responder satisfatoriamente às preocupações de quem sustenta a educação nacional.
Um país que não valoriza os seus professores compromete o futuro dos seus próprios filhos. E um Estado que exige sacrifícios permanentes aos educadores, sem resolver as suas reivindicações fundamentais, precisa de responder a uma pergunta incontornável: quem educa os responsáveis quando o próprio Estado falha perante aqueles que educam a nação?
